Histórias que inspiram: Deus nos acolhe, nos ensina e nos transforma

Desde pequena, sempre senti que Deus escolhe algumas pessoas para pegar no colo. Aprendi que a dor e as dificuldades não são afastamento, mas um chamado para estar mais perto d’Ele, para receber colo, consolo e presença. E Ele nunca falha…

Nasci com uma cardiopatia congênita rara, a estenose subaórtica membranosa. Desde cedo, passei por muitas internações e exames, e até gostava de explicar aos médicos o que eu tinha. Eu me sentia especial.

Quando nasci, disseram aos meus pais que eu não sobreviveria sem cirurgia antes dos dois anos. Meu pai tentou adiar ao máximo. Depois de muitas pneumonias, uma hemorragia digestiva e longos períodos internada, viemos para São Paulo. Eu tinha quase 11 anos quando os médicos decidiram que não dava mais para adiar. Pouco antes, havíamos sofrido um grave acidente de carro. Minha mãe entregava tudo a Deus.

Ali, Deus nos dava colo. Minha avó, que rezava o terço comigo no momento do acidente, me protegeu com o próprio corpo e faleceu; meu pai ficou internado por mais de um mês e minha irmã sofreu traumatismo craniano. Com isso, não voltamos para casa por um tempo. Nesse período, recebi a Primeira Comunhão e também a Unção dos Enfermos.

A cirurgia estava marcada para 1º de dezembro, mas foi adiada por uma pneumonia, ocorrendo no dia 14/12. Voltei para casa no dia 24/12. Foi um Natal diferente… Meu pai me deu uma Bíblia ilustrada que guardo até hoje.

Cresci, tive nove anos de saúde, estudei, trabalhei e iniciei a faculdade de engenharia elétrica. Em um exame de rotina, descobri que precisava de nova cirurgia: minha válvula havia se danificado. A cirurgia foi antecipada e aconteceu em 30/09, quando eu tinha 19 anos. O médico auxiliar realizou o procedimento, e sempre agradeci a Deus por ele ter pensado que eu poderia querer ser mãe.

Formei-me, conheci meu marido e me casei. No exame pré-nupcial, ouvimos que eu não deveria engravidar. Mas Deus tinha planos maiores. Engravidei, tive parto normal e, anos depois, engravidei novamente. Meus tesouros, minhas duas filhas, nasceram.

Mais tarde, em 26/09, com a prótese calcificada, passei pela terceira cirurgia. Foi um procedimento muito difícil. Sobrevivi… Durante a recuperação, vivi momentos de grande angústia espiritual, senti medo, abandono e lutei para permanecer por causa das minhas filhas. Lembrei-me de São Miguel Arcanjo, e, depois, soube que era 29/09. Senti que minha alma estava sendo defendida.

Os meses seguintes foram duros. Tive endocardite, ouvi um prognóstico de poucos dias de vida e sofri um ataque cardíaco. Minhas filhas ficaram comigo no hospital. Por mais um milagre, não perdi a prótese, recebendo alta no dia de Santo Antônio.

Nesse tempo, fui convidada a participar da catequese e me entreguei ao serviço do Reino. Ser catequista tornou-se minha forma de agradecer a Deus.

Em 2017, enfrentei nova luta: a prótese estava comprometida e a única solução parecia ser um transplante. Iniciei o protocolo, mas não havia tempo. Fui para a quarta cirurgia. Hoje tenho uma prótese metálica. O mesmo médico da segunda cirurgia, agora referência na área, realizou o procedimento com ousadia e precisão. Sigo agradecendo a Deus por ele.

Nesse processo, pude compreender uma dor antiga, pois, anos antes, perdi minha mãe em um acidente e, por desconhecimento, decidi não doar seus órgãos. Isso sempre me trouxe sofrimento. Vivendo a possibilidade de um transplante, entendi profundamente o valor do “sim” e da caridade.

Deus nos dá oportunidades, mas espera nossa entrega. Ele nos acolhe, nos ensina e nos transforma. A psicologia de Deus é incrível!

Janice Teixeira

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