Responde, Padre Alysson! Por que o Carnaval acaba se tornando um tempo de excessos?

Pergunta do mês: Por que o Carnaval acaba se tornando um tempo de excessos?

Quando chega o Carnaval, muitas pessoas sentem um certo incômodo interior. Não necessariamente por rejeição à alegria ou à festa, mas porque algo parece deslocado: muita intensidade, pouco sentido; muita promessa de felicidade, pouco descanso verdadeiro.

Curiosamente, o Carnaval não nasceu como oposição à fé. Sua origem está ligada ao calendário cristão e à proximidade da Quaresma. Era um tempo de transição: antes de um período de recolhimento, jejum e preparação para a Páscoa, vivia-se uma celebração mais simples, marcada pela convivência e pela mesa partilhada. O próprio nome remete a esse sentido: uma espécie de “despedida da carne”, isto é, a passagem de um tempo comum para um tempo de maior sobriedade, em vista da vivência quaresmal.

Com o passar dos séculos, porém, o sentido foi mudando. Aquilo que era passagem, tornou-se fuga. O que era convivência, virou excesso. E o que deveria preparar o coração, acabou, muitas vezes, deixando apenas cansaço e vazio.

Isso nos leva a uma pergunta honesta e nada moralista: aquilo que promete alegria está realmente oferecendo descanso ao coração?

Nem tudo o que é barulho é alegria. Nem tudo o que é intenso é pleno. A fé cristã nunca foi inimiga da festa, do riso ou da leveza, mas sempre nos ensinou que a verdadeira alegria é aquela que não cobra um preço depois. A virtude, nesse sentido, não é peso, é direção. Ela não tira a alegria, mas a protege.

Por isso, talvez, o ponto não seja “participar ou não do Carnaval”, mas como atravessar esses dias. Para alguns, será tempo de encontro com a família; para outros, de descanso do corpo e da mente; e para outros, ainda, de silêncio, retiro ou oração. Tudo isso é legítimo quando ajuda a pessoa a voltar mais inteira, mais serena, mais humana.

O problema não está na festa em si, mas quando ela se transforma num convite ao esquecimento de si mesmo. Quando, ao invés de renovar, esgota. Quando promete liberdade, mas entrega prisão interior…

Talvez o Carnaval possa ser resgatado como aquilo que deveria ser: um tempo leve, humano e simples que não nos afaste de quem somos, nem daquilo que desejamos no mais profundo do coração.

Desejo que cada um de nós atravesse esses dias com sabedoria, escolhendo não o que é mais barulhento, mas o que verdadeiramente faz bem.

Padre Alysson Antunes Carvalho

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