Quando fui comunicado pelo Vicariato para a Educação e a Universidade que tinha sido indicado para receber a medalha São Paulo Apóstolo na categoria Ação Missionária, fiquei feliz, claro, mas, sinceramente, não estou convencido de que sou merecedor de alguma coisa pelo meu trabalho à frente da Paróquia Santa Generosa.
Logo que soube da notícia, veio-me à cabeça as palavras de Jesus Cristo, em Lucas 17, 10: “Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos mandarem, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer”. E ainda quando Ele recomendou aos discípulos, que estavam felizes por terem expulsado demônios e realizado muitos milagres: “Não vos alegreis porque os espíritos se vos sujeitam, mas alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos nos céus”, em Lucas 10, 20.
A meu ver, tudo o que acontece em Santa Generosa é absolutamente normal para uma paróquia que se coloca verdadeiramente a serviço de Deus e do Evangelho. O que fazemos aqui é simplesmente responder ao apelo de Jesus: evangelizar, levar a Palavra a todos, administrar os sacramentos, atender o povo de Deus em suas necessidades físicas, materiais e espirituais.
Santa Generosa encontra-se em um lugar privilegiado, em uma das mais importantes regiões da cidade de São Paulo, caminho obrigatório para trabalhadores das mais diversas áreas, para estudantes, para pessoas que se dirigem a hospitais e clínicas, que vão às compras, ao divertimento, ao esporte, ao lazer… Não poderíamos desperdiçar tamanho privilégio de ter cristãos passando a todo o momento em nossa calçada sem oferecer o que nos pede a Santa Madre Igreja. No Catecismo da Igreja Católica, somos exortados a anunciar o Evangelho, a apresentar Jesus, seus ensinamentos e o plano de salvação ao mundo, pois essa é a nossa missão. Como pároco, o que tenho de fazer é estar atento ao dinamismo próprio de uma região tão relevante e tentar responder às suas necessidades.
Santa Generosa é hoje a igreja com maior número de missas no Brasil aos domingos. Faz pouco tempo, eu percebi que as missas de domingo estavam sempre lotadas. O espaço já não comportava tantos fiéis, então acrescentei mais uma em horário noturno, às 22h15. Agora são dez missas aos domingos, seis durante a semana e cinco no sábado.
Obviamente que as circunstâncias ajudaram a tornar nossa Paróquia tão procurada. Na pandemia, as igrejas foram fechadas e tivemos a sorte de sair na frente com os protocolos. Santa Generosa foi uma das primeiras a pôr em prática as regras de distanciamento e higienização e a voltar com as celebrações e confissões na pandemia. Quando Dom Odilo recomendou a volta das celebrações (às vésperas de Corpus Christi de 2020), a Paróquia passou a celebrar dez missas aos domingos, mas se viu obrigada a reduzir o número por exigência de intervalo maior entre as celebrações pelo protocolo sanitário.
Eu me lembro que o cardeal me chamou a atenção por estar celebrando muitas missas e, ainda, por fazer propaganda delas, mas assim que ouviu meus argumentos, ele se convenceu e me autorizou a continuar. Quero agradecer a Deus por essa permissão, porque se fosse outro bispo, dificilmente aceitaria um sacerdote tão indisciplinado como eu. Aliás, aproveito esta ocasião para comunicar a Dom Odilo que assim que a última missa do domingo (das 22h15h) lotar, teremos outra às 23h10, com término antes das meia-noite. Meu objetivo é que ninguém tenha a desculpa de não cumprir o preceito dominical por não encontrar uma igreja aberta.
As confissões também fazem parte da normalidade de uma paróquia; o dever de um padre é não deixar que uma pessoa que tenha cometido um pecado mortal seja privada de receber a Comunhão no dia do Senhor. Para mim, deveria ser obrigatório o sacerdote atender confissões antes ou depois das missas, pelo menos aos domingos.
Temos na Santa Generosa nove horas de confissões de segunda a sexta-feira. Pelos nossos confessionários, passam em média 150 pessoas por dia; aos sábados (onze horas de atendimento), são cerca de 300 confissões; e, nas quinze horas de atendimento aos domingos, chegamos a registrar 650 confissões.
Esses números não são invenção da nossa cabeça. Adotei o que chamo de “confessômetro”, com anotações do número de confissões inicialmente em papel, mas agora, graças a uma invenção de Padre Alysson e de sua equipe de inteligência artificial (Adriana e Denis), usamos um sistema computadorizado desses números. Oficialmente, iniciamos a contagem do número de confissões nesse novo sistema eletrônico em 16 de julho último e, para se ter uma ideia, no primeiro mês, ou seja, de 16 de julho a 16 de agosto, passaram pelos confessionários de Santa Generosa 8.025 pessoas. Em breve, o programa poderá registrar também o número de unção dos enfermos, certamente mais uma relevante contribuição de nossa Paróquia para a Igreja de São Paulo e do Brasil.
Agora, graças a uma brincadeira na rede social católica, somos conhecidos como os “leões das confissões”. Precisamos de muitos leões que estejam disponíveis a passar horas e horas em um confessionário. O nosso barulho com as confissões está tocando vários padres e leigos do Brasil inteiro, e, felizmente, vemos crescer o número de iniciativas incentivando esse sacramento. Preciso destacar o empenho de Padre Alysson em tornar o espaço dos confessionários de Santa Generosa mais acolhedor, orante e contemplativo. Sem dúvida, um projeto belíssimo!
Outro aspecto missionário de Santa Generosa são as procissões do Santíssimo todas as primeiras sextas-feiras do mês. Após a missa das quinze horas, vamos até a Paulista; e, após a missa das dezoito horas, descemos até o metrô Paraíso; em breve, começaremos as procissões de Nossa Senhora, no primeiro sábado, logo após a missa do meio-dia.
A catequese de adultos também surpreende. Em média, quinhentos adultos recebem o sacramento da Crisma por ano na Paróquia; destes, 30% recebem o Batismo e 50% recebem a Primeira Comunhão! Nós precisaríamos de pelo menos mais vinte catequistas para responder à demanda que não para de crescer.
Santa Generosa tornou-se ainda o ‘lugar de consolação’ para tantas famílias que têm seus doentes em um dos oito hospitais da região atendidos pela paróquia. Além da visita do sacerdote, com a Unção dos Enfermos, há também a visita dos ministros aos que pedem a Santa Comunhão.
A grande obra missionária apoiada pela Paróquia é a Missão Belém. Nossa comunidade é responsável pela adoção de cerca de 250 crianças do Haiti, e ajuda a manter um bazar com roupas, calçados e acessórios usados.
Atualmente, o que se arrecada na venda dos produtos que chegam ao bazar está sendo revertido para a construção de um prédio de dezenove andares próximo ao metrô Belém. Além de uma igreja com capacidade para mil pessoas, o prédio terá leitos para duzentas pessoas de rua em estado terminal de saúde. Santa Generosa está em plena campanha para construir a laje de um andar no valor de trezentos mil reais. Convido os interessados em colaborar com esta grande obra a entrarem em contato com a Missão Belém ou comigo na secretaria da Paróquia.
Missas, confissões, visitas a hospitais, procissões, bazares… As necessidades aparecem, e Deus vai providenciando para que as coisas aconteçam e nada nos falte. Graças a Deus temos conseguido padres para missas e confissões em todos os horários. Quero agradecer a cada um dos que, por longas horas, se dedicam às confissões, como o Pe. Alysson (nosso vigário paroquial), Pe. Adalto, Pe. Luciano, Pe. Emanuel Messias (da Paróquia Nossa Senhora da Assunção em Santo Amaro), Monsenhor Jonas, Pe. Kauê, Pe. Graciano, Pe. Claudinei e Pe. Ulisses. Grato sou também aos funcionários que lutam incansavelmente todos os dias, aos ministros, aos voluntários…
Então, quando recebo uma homenagem como esta, tenho é que ficar constrangido, porque este não é um trabalho exclusivamente meu. Santa Generosa não tem a relevância que tem por minha causa ou por causa de minha administração somente. Há muitos braços com mangas arregaçadas para que tudo saia como Deus quer – sacerdotes, ministros, equipe contratada, voluntários, fiéis.
Essa medalha é uma homenagem a todas essas pessoas que se empenham para tornar Santa Generosa um lugar de oração, de acolhida, de misericórdia, de bênçãos.
O meu muito obrigado!
Padre Cássio Carvalho – setembro 2025.
