É possível viver o Natal sem o Papai Noel? Todos os anos essa pergunta reaparece, especialmente entre famílias cristãs que querem dar aos filhos um Natal mais verdadeiro. E a resposta é, ao mesmo tempo, simples e desafiadora: sim, é possível. Por sinal, não é necessário “cancelar” o Papai Noel para recuperar o sentido cristão e verdadeiro do Natal. Mas para isso é preciso colocar cada coisa no seu lugar.
O personagem que o mundo conhece como “Papai Noel” tem raízes católicas. Ele nasce na figura de São Nicolau de Mira, bispo do século IV, conhecido por sua caridade discreta e criativa. Para salvar três moças pobres da escravidão e da vergonha, há um episódio famoso em que o santo deixou bolsas de ouro pela janela da casa delas; e é através desse gesto que nasceu o costume de dar presentes neste período.
Com o passar dos séculos, a devoção a São Nicolau cresceu no Oriente e no Ocidente. Quando essa tradição chegou ao mundo anglo-saxão, o nome “Saint Nicholas” se transformou em “Santa Claus”. Porém, no século XIX, escritores e artistas elaboraram uma figura de um velhinho bondoso e fofinho — imagem que, no século XX, a publicidade, especialmente a da Coca-Cola, adotou e consolidou no visual que conhecemos hoje.
Vemos assim que o Papai Noel não nasceu no Polo Norte, mas no altar da Igreja. Ele não veio do comércio; veio da caridade cristã. O problema não é o Papai Noel, é o que fizeram dele. Vivemos em uma época em que símbolos são facilmente apropriados pelo mercado, e com o Papai Noel não foi diferente… Ele deixou de ser o ícone da caridade de um bispo santo para tornar-se o garoto-propaganda de um consumo desenfreado. E quando isso acontece, algo precioso se perde, pois o Natal:
- deixa de ser encontro e se torna compra;
- deixa de ser nascimento e vira embalagem;
- deixa de ser Deus vindo ao mundo e vira um boneco de shopping.
O perigo não está em usar uma figura lúdica, mas em permitir que ela encubra o grande mistério que celebramos: o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós. Então, sim, é possível viver o Natal cristão com o Papai Noel; e isso pode ser espiritualmente fértil, mas é preciso recolocar São Nicolau no seu lugar de origem: não em um trono, mas na porta que nos conduz ao Presépio.
Aqui eu gostaria de deixar alguns caminhos concretos para isso:
- Resgatar a história verdadeira – conte às crianças quem foi São Nicolau: um bispo, homem de Deus, que amava os pobres. Explique que o Papai Noel nasceu dessa história. Assim, o encanto lúdico deixa de ser fantasia folclórica e se torna porta e exemplo para a santidade;
- Unir os presentes à presença de Deus — quando for dar um presente, diga: “Hoje fazemos o que São Nicolau fazia, damos alegria porque Deus nos deu Jesus.” O presente deixa de ser consumo e volta a ser sinal do amor de Deus;
- Levar o Papai Noel ao Presépio — em casa, no colégio ou na paróquia, mostre às crianças que o Papai Noel aponta para Jesus. Ensine que o melhor presente é Ele, e que tudo o mais é consequência.
- Criar rituais que falem do verdadeiro Natal — antes de abrir os presentes, acender uma vela diante do Presépio e rezar agradecendo por Jesus se fazer presente no meio de nós.
Sim, é possível viver o Natal sem o Papai Noel, entretanto, se torna ainda mais bonito quando aprendemos a vivê-lo com ele, desde que purificado, iluminado e devolvido às suas raízes cristãs. No fundo, o Papai Noel, quando redescoberto como São Nicolau, não tira o foco do Natal: ele aponta para o Menino Jesus, o presente que nenhum shopping pode oferecer.
Padre Alysson Antunes Carvalho
