Dom Odilo Pedro Scherer, 8 de julho de 2026 | “O São Paulo”
No dia 1º de julho passado, aconteceu a excomunhão de dois bispos ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, por terem ordenado quatro bispos novos, também ligados à mesma Fraternidade, sem terem o Mandato Pontifício, com a aprovação e nomeação dos novos bispos, sempre requerido para ordenar um novo bispo. Falou-se muito na imprensa e nas mídias sobre o fato; mesmo assim, desejo apresentar algumas reflexões e esclarecimentos. Afinal, não é todos os dias que acontecem cismas e excomunhões na Igreja, graças a Deus!
A excomunhão é a pena mais grave que a Igreja impõe a um fiel (clérigo, religioso ou leigo) por alguma falta muito grave cometida por ele, com a consequente exclusão da comunhão com a Igreja. O efeito principal da excomunhão é a separação (cisma) da comunhão visível com a Igreja e, portanto, também a suspensão dos direitos que fazem parte da comunhão eclesial, como a recepção válida dos Sacramentos e, para os clérigos, a exclusão da celebração dos Sacramentos. A excomunhão, em determinados casos previstos pela norma da Igreja, é automática; em outros, ela pode ser declarada e imposta a alguém após o devido processo canônico. No caso que tratamos, ela foi automática.
Quem são e o que fizeram os novos excomungados para receberem pena tão grave? A Fraternidade São Pio X foi fundada em 1970 pelo Arcebispo francês Marcel Lefebvre, que não aceitou o Concílio Vaticano II e se opôs ostensivamente à sua aplicação. Na Fraternidade, foram sendo acolhidos outros católicos, que igualmente não aceitam o Concílio Vaticano II e toda a Igreja pós-conciliar. Não se trata apenas de rezar a missa em latim e de costas para o povo, na forma pre-conciliar, mas de muito mais. De fato, significa não aceitar a Igreja pós-conciliar, que consideram desviada e fora da autêntica “tradição” católica; por isso, ela já não seria mais a verdadeira Igreja de Cristo. Alguns mais extremados chegam a negar a legitimidade de todos os Papas que sucederam a Pio XII: São João XXIII, São Paulo VI, João Paulo I, São João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. E isso, naturalmente, é muito grave e espalha uma grande confusão, insegurança e divisão no meio da Igreja.
Se isso já não bastasse, o próprio Dom Marcel Lefebvre, junto com outros dois bispos cismáticos, ordenou alguns bispos da linha dele, sem a aprovação do Papa, em 1988, sendo excomungado junto com os outros bispos ordenantes e os bispos ordenados por ele. E agora, dia 1º de julho, foram ordenados outros quatro bispos novos, também sem o Mandato Pontifício, ou seja, sem a aprovação do Papa, que é o único que aprova a nomeação de bispos na Igreja Católica. Leão XIV, em diversas ocasiões, pediu e até suplicou paternalmente à Fraternidade São Pio X que não o fizesse. E a Santa Sé deixou claro que, com esse ato, os bispos ordenantes e os bispos ordenados incorreriam automaticamente na pena de excomunhão. Ainda no dia 30 de junho, véspera da ordenação, o Papa Leão XIV fez um último apelo aos responsáveis da Fraternidade para que não fizessem a ordenação. Tudo inútil. A ordenação foi feita e, portanto, os autores desse ato incorreram em excomunhão. O que a Santa Sé fez, através do Dicastério para a Doutrina da Fé, foi apenas formalizar a excomunhão, já acontecida com a decisão e atitude dos citados bispos.
Tratou-se, portanto, de um ato cismático, ou seja, de separação da comunhão da Igreja, para escolher autonomamente um caminho fora da comunhão da Igreja. E foi uma desobediência gravíssima ao Papa e à própria Igreja, que tem a autoridade para estabelecer as suas normas sobre a reta ordem e para assegurar o maior bem dos fiéis. Sobre as questões doutrinais em jogo, é preciso ir mais a fundo e não seria o lugar de fazê-lo aqui, mediante este breve artigo. Mas é certo que não se tratou apenas de desobediência ao Papa e às normas da Igreja, mas foi ferida a própria fé na Igreja Católica e no Espírito Santo, que conduz a Igreja através dos seus legítimos Pastores, sobretudo em referência ao Papa, o que é, de forma prática, negado pela Fraternidade São Pio X.
Nestes últimos anos, a Igreja está refletindo muito sobre a “comunhão eclesial” que, lamentavelmente, é ferida e até rompida de diversas formas. A comunhão eclesial refere-se à aceitação da mesma fé, afirmada no “Creio em Deus Pai” e explicada oficialmente pelo Magistério da Igreja, sobretudo no Catecismo da Igreja Católica, nos documentos conciliares, nos escritos e na voz do Papa e dos bispos em comunhão com ele. Mas refere-se também na comunhão litúrgica, ou seja, na forma de celebrar os mistérios da fé na forma aprovada pelo Magistério da Igreja. E a Igreja conclama a todos a viverem e testemunharem essa comunhão na caridade fraterna, no serviço evangélico ao reino de Deus no mundo e na esperança na salvação prometida.
A celebração da Eucaristia representa o momento visível mais forte dessa comunhão invisível da Igreja. Que nossas celebrações eucarísticas unam sempre mais a Igreja e que todos os que se reúnem em torno do altar (que representa Cristo), ouvem a Palavra de Deus e acolhem o Pão da Vida sejam sempre mais um só corpo, sem divisões.
