Meu nome é Priscila, participo da Santa Generosa há 4 anos e partilho minha história de fé, superação e muito amor, o que me levou a dedicar a minha vida à caridade. Talvez eu tenha passado por uma das piores dores do mundo, justamente por não ser a ordem natural da vida: entregar minha filha ao nosso Pai. Sim, minha primogênita, Natália, com quem tive a bênção de conviver por 31 anos, nos deixou. É uma dor dilacerante, mas Deus tudo prepara porque nos ama profundamente.
Era 2022, quando entrei na Santa Generosa pela primeira vez – recém-chegada à cidade de São Paulo – estava sob o impacto do contraste entre opulência e miséria lado a lado, ao passar pelo imponente Teatro Municipal e ver tantas vidas deitadas no chão daquela calçada. Um amigo comentou: “em dois meses, você normaliza esta situação”. Mas senti em meu coração um aperto e pedi a Jesus que não me deixasse perder o meu olhar humano e caridoso, e que me ajudasse a fazer alguma coisa.
Eu não me confessava há mais de 32 anos, porém continuava indo à Missa, mas não comungava. Então conheci o Padre Cássio e me senti estimulada a confessar. Preparei-me muito para esse dia. Eram tantos anos de pecado… e foi um momento profundamente emocionante. A partir daí, senti-me acolhida e em casa na Generosa.
Soubemos da Crisma de adultos em uma Missa, e minhas amigas me convidaram para participar, então aceitei imediatamente. Fizemos a catequese com o Professor Paulo Fernando, e mal sabia ele que estava me ajudando a me preparar para o dia mais difícil da minha vida, sem que eu largasse as mãos de Deus.
Eu ainda não havia comungado, pois queria receber a Comunhão novamente na cerimônia de Crisma. Foi um tempo de sacrifício, entrega e muita sabedoria. O dia tão especial chegou, e tive meu encontro com Jesus. Foi tão forte que, ao receber a Comunhão pelas mãos de Dom Rogério, meu corpo parecia estar em chamas, como se fosse abraçada por um calor intenso. Era Jesus e seu amor.
Meu coração disparou, e fiquei inundada de alegria. Isso aconteceu em um sábado, dia 19 de outubro. Comemorei esse momento com meus filhos, mesmo à distância. Minha filha residia na Bélgica e meu filho em Campinas. Até que, cinco dias depois, em 24 de outubro, eu ainda em estado de graça, recebi a notícia do falecimento da minha menina. Fiquei em choque! Sem contar que meu pai havia partido um ano antes. Caí de joelhos e pedi ajuda a Deus. Então senti, em meu coração, o desejo de ir para a igreja e falar com o Padre Cássio, que me recebeu serenamente e me orientou sobre como cuidar da alma da Naty naquele momento, pois eu só pensava em ajudá-la. Foram sete Missas até o sétimo dia, ocasião em que ofereci minha comunhão por ela.
Abracei a minha cruz e segurei nas mãos da Virgem Maria. Recebi muito apoio de familiares, amigos e da minha Igreja. Fiz o que precisava ser feito: atravessei o meu luto, aproximei-me ainda mais de Deus, confiei em Seus propósitos para mim e fui retomando minha vida com força e coragem. À época, ainda me aprofundei na Palavra, especialmente no Livro de Jó.
Na Via-Sacra de 2025, encontrei Dom Rogério e conversei com ele sobre minha provação. Fui então encaminhada para um dos maiores consolos que recebo até hoje: a Pastoral Filhos no Céu, onde nós, pais, reconhecemos nossa dor, reunimos força e fé, e aprendemos que nossos filhos, antes de serem nossos, são de Deus.
Um dia, na Missa, senti muito forte a vontade de servir. Pedi a Jesus que me indicasse um caminho. Ao final da celebração, o Padre Cássio falou da Missão Belém. Procurei saber mais através da Internet e quase não acreditei em tudo o que li… Imediatamente lembrei do meu pedido a Jesus, feito ali, diante do Teatro Municipal. A Missão acolhe pessoas em situação de rua e vulnerabilidade. Inscrevi-me como voluntária e fui conhecendo e me apaixonando, dia após dia, pela obra. Ressignifiquei minha vida, atuando no acolhimento dos irmãos e, a cada dia, meu coração se enchia mais de paz, alegria e amor. Pela vontade de Deus, hoje sou voluntária no Centro Guadalupe, que cuida dos vozinhos e vozinhas da Missão Belém e acolhe cerca de 700 idosos.
Estar na Missão é viver o Evangelho, é estender a mão aos pequeninos de Jesus. É ser família. Quem conhece de perto a obra se apaixona, se rende e se converte. A transformação não acontece somente na vida daqueles irmãos das ruas, mas também na vida de todos nós que vivemos o carisma de Belém. Somos uma grande família cercada de amor, lutando pela vida!
Priscila Martinelli

