Quando cheguei em São Paulo em 1980 para estudar filosofia e iniciar os meus estudos para me tornar sacerdote, encontrei algo que daria um novo sentido ao meu sacerdócio e transformaria minha forma de ver o mundo, tal foi o impacto que causou em minha cabeça naquele momento de minha vida.
Eu me encontrei com o Movimento Católico Comunhão e Libertação, que nasceu no ambiente estudantil na Itália pelas mãos do Padre Giusssani, no ano de 1954. O movimento dava os seus primeiros passos em São Paulo, por intermédio do trabalho dos padres Luigi Valentini, João Carlos Petrini, Vando Valentino e um grupo de universitários.
Meu primeiro encontro com o Padre Giussani, no começo de 1980, foi inesquecível: eu fazia parte de um pequeno grupo de vocacionados, e, claro, não perdi a oportunidade de encher Dom Giussani de perguntas.
A maioria dessas perguntas, certamente, era de cunho social, dado o peso que a realidade dos mais pobres e vulneráveis tinha em minha mente e no meu coração àquela época. Eu acreditava e expressava para todos o meu desejo de que o cristianismo pudesse ser a chave para a mudança do mundo, para a superação da miséria, da indigência.
Na minha cabeça de jovem, bastava a boa intenção de alguém para a construção de um “mundo novo”, e que Jesus certamente iria abençoar iniciativas que focassem nessas questões. Com grande sabedoria, no entanto, Dom Giussani jogou por terra a minha “ideologia” juvenil e recolocou a fé no centro da transformação do mundo. Como grande mestre que era, focou seu ensinamento na realidade inescapável do pecado original e na incapacidade de o ser humano transformar o mundo, por mais boa vontade que pudesse ter.
Dizia tão claramente coisas que eu iria entender somente algum tempo depois. A frase central, marcante foi: “a ação do homem ou nasce de um relacionamento pessoal com Cristo ou é mera ideologia”. Para ser sincero, eu saí daquele encontro meio que decepcionado, cabeça dura que era! O verdadeiro sentido daquele “chacoalhão”, só fui perceber bem mais tarde, ao longo dos anos que se seguiram.
Segundo Dom Giussani, somente a comunhão em Cristo pode libertar o homem da escravidão do pecado. Pura e simplesmente, a libertação é obra de Deus, pois a pessoa que se sente amada por Deus pode amar gratuitamente o outro. Ao mesmo tempo, alertou para o fato de que o amor puramente humano tende a transformar-se depois numa pretensão de que o outro seja refém de sua ação. E, infelizmente, é exatamente o que vemos acontecer hoje com tantas iniciativas oriundas da “boa vontade” humana apenas.
Escrevo isso agora porque sou profundamente agradecido ao homem de Deus que, ao longo dos anos, mudou completamente a minha vida como homem e como sacerdote. Não tenho dúvidas de que, se continuasse com a linha de pensamento daquela época, fatalmente eu teria me tornado um ativista político.
Com Dom Giussani, entendi a vocação que me foi dada – a de viver a comunhão com Cristo através da Igreja e de uma comunidade em ação. Hoje vejo que é dessa comunhão com Cristo que nasce o desejo de servir às pessoas e à Igreja através do sacramento da Confissão, das Missas, do atendimento aos doentes nos hospitais… Hoje reconheço e reafirmo que a salvação e libertação vêm de Deus, são obras de Deus, e não meros frutos de nossa vontade, do nosso empenho em mudar o mundo.
Nos cinquenta anos da presença do Movimento Comunhão e Libertação em São Paulo, comemorados este ano, sou grato à amizade com Dom Giussani e aos seus ensinamentos, sou grato aos paroquianos de Santa Generosa, aos padres que ali trabalham e a todos os que direta e indiretamente me ajudam a saborear as graças que todos os dias contemplo na minha vida de sacerdote.
Padre Cássio Carvalho – setembro de 2026.