Ser mãe é um dom divino, uma bênção capaz de transformar a vida de forma profunda e única. Porém, quando essa maternidade envolve uma filha neurodivergente, ela pede uma força ainda maior: uma resiliência que se constrói todos os dias, entre desafios, aprendizados constantes e um amor que se entrega por inteiro.
Minha trajetória começou com os estudos em marketing de moda no exterior e o trabalho na confecção de roupas femininas ao lado da minha mãe. Casei-me, e vieram meus maiores presentes: Gabriela e, depois, Gustavo. Antes da maternidade, eu acreditava ter o controle de tudo, mas, com o nascimento da Gabi, compreendi que minha vida tomaria um novo rumo e que todos os planos precisariam ser ressignificados.
No primeiro ano, Gabi despertava com muita frequência, de hora em hora, o que me levou a um esgotamento físico e emocional intenso. Decidi me dedicar integralmente à maternidade, renunciando à fábrica de confecção de roupas, que estava em plena ascensão.
Gabi apresentava crises noturnas, muita rigidez e agitação. Com o tempo, comecei a perceber diferenças em relação a outras crianças: andava nas pontas dos pés, tinha dificuldades na coordenação motora, evitava contato visual e falava muito sozinha, entre outros comportamentos. Ao mesmo tempo, revelava habilidades surpreendentes: aprendeu o alfabeto em inglês aos dezoito meses, falava fluentemente aos dois anos e, aos três, já havia decorado um livro inteiro.
Há 22 anos, o acesso à informação sobre o autismo era muito restrito. Quando Gabi tinha três anos, embora os pediatras afirmassem que ela se desenvolvia no seu próprio ritmo, algo dentro de mim me impulsionava a buscar mais respostas para as minhas dúvidas. Sem encontrar materiais em português, mergulhei em pesquisas em inglês até descobrir um livro que abordava o autismo e o TDAH. Foi o primeiro contato que tive com esses termos, que transformariam profundamente a minha vida.
Ao longo dessa caminhada, vivi muitas incertezas, crises de ansiedade, momentos de depressão e até questionamentos na fé. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, foi me mostrando um caminho para viver com mais humildade, empatia, gratidão e serviço.
Com a generosidade do Padre Cássio e a formação da Catequese do Bom Pastor, conduzida pela Sol, tornei-me catequista de uma turma de crianças com deficiência. A celebração da Primeira Comunhão foi um momento de profunda emoção, revelando que o amor de Deus não tem limites e o quanto ainda temos a aprender com essas ovelhas tão especiais.
Atualmente, Gabi está no último ano do ensino médio, participa de exposições de arte, ama cantar, dedica-se ao voluntariado, servindo alimento a pessoas em situação de rua, e compartilha um pouco da sua vivência com o autismo e a fé em seu perfil @mundodagabi_aut.
Sabemos que a maternidade atípica traz desafios constantes e que o autismo não tem cura, mas Deus tem um propósito especial para cada um de nós, caminha sempre ao nosso lado e, mesmo nas dificuldades, nos sustenta com Sua graça. É nesse amor que encontramos força, sentido e esperança, certos de que nenhum passo é em vão e de que, ao final, tudo nos conduz ao Seu encontro.
Convido você para o lançamento de uma obra muito especial da qual tive a honra de fazer parte: o livro “Caminhos Fora do Roteiro”, que reúne relatos de dez mães de filhos autistas. São histórias reais, repletas de emoção, fé e superação, que acolhem, inspiram e fortalecem outras famílias e toda a sociedade. O lançamento do livro foi no dia 2 de maio, na Livraria da Vila, na Av. Paulista, 1603.
Susane Bae
