“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que permaneça convosco para sempre.” (Jo 14, 16). Cristo prometeu aos Apóstolos que lhes enviaria o Espírito Santo. Hoje, embora rodeados de gente, conectados com um sem número de “amigos” e seguidores nas redes sociais, temos sempre a sensação de estarmos sós no mundo, uma sensação de solidão que parece exacerbar-se nos momentos em que temos de enfrentar nossos dramas, dificuldades, angústias.
Na verdade, o mundo moderno foi aos poucos alimentando uma inimizade entre os homens, um espírito de competição nocivo, que separa, que segrega, e tenta destruir, cancelar, aniquilar o outro. A competição deixou de ser algo natural e até saudável para dar lugar a um ambiente de rivalidade e de falta de perdão, seja no mundo do trabalho, em casa, na vida social, seja dentro da igreja, entre padres, ministros e leigos.
Os conflitos que se multiplicam mundo afora é apenas o reflexo do que acontece da nossa incapacidade de boa convivência no nosso cotidiano. Guiado pelo instinto de sobrevivência e pela busca de poder e de razão, o homem tornou-se o lobo do próprio homem, como bem definiu Thomas Hobbes. O resultado dessa “guerra de todos contra todos” conhecemos bem: o individualismo, a reclusão, um isolamento cada vez maior, a solidão fabricada pela necessidade de autopreservação.
Para os que creem, a experiência da fé contradiz essa lógica. Deus fez homem e mulher à Sua imagem e semelhança; por si só, um sinal de que nunca estaríamos sós; fomos criados segundo as características, os valores e as capacidades morais, intelectuais e espirituais do Criador onipotente! Embora o pecado original tenha dado início a essa confusão, a essa divisão, Deus nos restituiu a natureza original quando enviou ao mundo o Seu próprio Filho. Pelo mistério da Sua Encarnação, Paixão, Morte de Cruz e Ressureição, nos veio a Redenção, o retorno à graça e à filiação divina.
Cumprido o que a mente Divina estabelecera, ainda assim Jesus não poupou esforços para permanecer entre nós e continuar Sua obra salvífica. Primeiramente, se faz presente de Corpo, Sangue, Alma e Divindade nos Sacrários em todos os cantos da terra; segundo, envia-nos o Espírito Santo, por que nos sentiríamos sós se, ao mesmo tempo em que Cristo se nos dá na Eucaristia, ainda sabemos poder contar com o Espírito Santo, paráclito e defensor, que nos ativa, nos inspira, nos santifica, nos renova?
O Espírito Santo chegou aos Apóstolos reunidos no cenáculo no Dia de Pentecostes, e continua chegando a todos nós ainda hoje pelo sacramento do Batismo. As dúvidas que nos assaltam, o espírito de solidão, o individualismo, etc., no entanto, fazem sentido quando duvidamos da ação do Espírito e da presença do próprio Deus em nossas vidas.
Aconteceu o mesmo com os apóstolos, pois às vésperas da ascensão de Jesus aos Céus – portanto, depois de um longo e direto convívio com o Mestre – os apóstolos lhe perguntam se aquela era a hora em que Ele iria restaurar o Reino em Israel. Jesus estava subindo aos Céus, no entanto os discípulos estavam mais preocupados com poder, em saber quando se estabeleceria Seu reino neste mundo… Ele, que tantas vezes insistira que o Seu Reino não era deste mundo (Jo 18, 36). Por que não haviam entendido? Porque lhes faltava o Espírito Santo!
A falta de compreensão era tamanha que, mesmo quando Jesus já havia desaparecido de suas vistas na ascensão aos Céus, eles se mantiveram inertes, boquiabertos. Foi preciso que dois homens vestidos de branco lhes perguntassem por que estavam ali parados, desesperançados. “Esse mesmo Jesus, que dentre vós foi elevado ao Céu, virá do mesmo modo como o vistes subir.” (Atos 1, 11).
E a promessa de Jesus se realizou quando estavam reunidos no Cenáculo: o Espírito Santo, em forma de língua, veio e pousou sobre eles, que, imediatamente, começaram a falar em línguas, e todos os ouviam em seu próprio idioma – bem ao contrário do que acontecera na Torre de Babel, uma construção impelida pela autossuficiência, pela ambição, pelo desejo de glória e reconhecimento, pela tentativa desesperada do homem de alcançar o Céu pelos próprios méritos, exatamente o que vemos em nosso mundo secularizado.
Sem o Espírito Santo, o homem nada pode entender; sem o Espírito Santo, falta-lhe confiança, lhe sobra o vazio. Não é possível entender que, mesmo sabedores da presença do Espírito Santo e do próprio Cristo Vivo na Eucaristia, ainda nos sintamos sós. Falta-nos a fé, a certeza de que estamos plenificados na graça que nos vem desse mesmo Espírito. Não à toa Jesus continua a nos questionar: […] “quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).
Jesus nos deu a garantia de que faríamos sinais ainda maiores do que Ele fizera. Os primeiros cristãos tinham essa certeza, tanto que grande parte deles foi capaz de dar a vida por Cristo. Deus não nos pede o martírio; pede somente que creiamos n’Ele, que não sejamos escravos do mundo, que perseveremos na oração, no jejum, na penitência e no amor aos irmãos – exatamente o inverso do que prega esse mundo competitivo e egoísta a que estamos habituados. O Espírito nos foi dado, e a certeza de que Ele está conosco, a certeza de que podemos viver na plenitude de Sua graça, só depende de nós, da nossa fé.
Padre Cássio Carvalho – junho de 2026.
